Está em todas as descrições turísticas de Lisboa, e é dito frequentemente quando se apresenta a cidade pela primeira vez aos turistas estrangeiros: São sete colinas, tal como Roma. Mas qual é a origem deste número? E será que reflecte a realidade ou é apenas um mito?

Olisippo, Lisabona, 1600-1699.
Imagem: Bibliothèque nationale de France
Olisippo, Lisabona, 1600-1699.
Imagem: 
Bibliothèque nationale de France

Quantas colinas tem Lisboa?

Segundo o Dicionário da História de Lisboa não existem referências a sete colinas em Lisboa antes do século XVII. 

Damião de Góis na sua Descrição da Cidade de Lisboa, publicada em 1554  identificou uma primeira colina na cidade, referindo que ao seu tempo (século XVI), a cidade estendia-se ao longo de cinco colinas:  

A antiga cidade de Lisboa ocupava apenas uma colina elevada que se prolongava até à margem do Tejo. Hoje a extensão da cidade abrange vários montes e vales, cuja parte mais importante e mais célebre fica ao oriente. (…)

(…) A cidade, sentada em cinco colinas e outros tantos vales feracíssimos e agradáveis, abarca um espaço tal que o perímetro pode atingir uns 7 mil passos.

Damião de Góis, Descrição da Cidade de Lisboa, 1554, p. 41; p. 48

As colinas identificadas por Damião de Góis são:

  • Santos
  • S. Roque 
  • Santa Ana
  • Nossa Senhora do Monte
  • Castelo 

Cristóvão Rodrigues de Oliveira no seu Sumario e[m] que breuemente se contem alguas cousas assi ecclesiasticas como seculares que ha na cidade de Lisboa, publicado em 1554, aponta apenas 4 montes.  

  • Chagas e S. Roque 
  • Sant’Ana
  • Nossa Senhora do Monte
  • Graça e S. Vicente

As 7 colinas de Frei Nicolau de Oliveira, 1620

É na obra de Frei Nicolau de Oliveira,  Livro das Grandezas de Lisboa, publicado em 1620, que surgem pela primeira vez as sete colinas de Lisboa e é a partir desta obra que se generaliza o mito. A obra é uma descrição da cidade de Lisboa, da sua história e é também uma tentativa de a comparar à cidade eterna.

Ocupa agora pois esta Cidade em Comprimento de Belém té São Bento de Enxobregas, que são quasi duas lagoas, continuando-se sempre casas e quintas, fincando o meo della, e o a que propriamente chamamos Cidade situada sobre sete montes muy altos, e de muyta distancia entre huns, e outros…

Frei Nicolau de Oliveiria, Livro das Grandezas de Lisboa, 1620, p. 113

Frei Nicolau de Oliveira, religioso da Ordem da Santíssima Trindade de Lisboa, prossegue descrevendo estes 7 montes:

  1. S. Vicente de Fora – “Começa este monte a levantar da parte do Oriente o Illustre Mosteiro de Sancta Clara, e sobe té São Vicente e se acaba em Nossa Senhora da Graça. (…)”
  2. Santo André – “A mão esquerda deste monte em respeito do Occidente, se vay levantando noutro mõte (que sobe do mesmo sitio, em que o acima fenece) té o postigo de Sancto André, e costeando o pee do Castelo pela parte do Oriente vem a se acabar junto ao Chafariz d’el Rey (…)
  3. Castelo – “(…) Este monte começa da parte do Oriente da porta de Sancto André, e vem sempre como cortado ao picão da parte do Oriente, continuando o Valle, que o dividida do segundo monte, té dar junto ao Chafariz d’el Rei (…)”
  4. Sant’Ana – “(…) fica quasi em triangulo hum monte alto, que se chama o monte de Sancta Anna, por estar no mais alto dele hum Mosteiro de Religiosas franciscanas (…) Cortam este monte dois Valles muy compridos, hum pella parte do Oriente e outro pella do Occidente (…)”
  5. S. Roque – “(…) Este se começa a levantar defronte da porta do Ouro e, correndo junto do valle, que entre elle e o do Castello fica entreposto (…) Occupa este monte muy grande parte da freguesia dos Martyres, a da Trindade, a do Loreto e muy grande parte da freguesia de S. Paulo.”
  6. Chagas – “(…) além desta igreja está este monte ocupado com parte de tres freguesias, que são a mayor parte da Freguesia do Loreto, parte da freguesia de Sancta Catherina e parte da freguesia de S. Paulo.”
  7. Santa Catarina – “(…) ficando á mão direita pera a parte do Occidente o Monte de Sancta Catherina do Monte Sinay, que he o séptimo, o qual se estende em muy grande espaço e fenece em hum pequeno valle junto á Esperança, onde se acaba a principal parte do arrabalde da cidade (…)”.

Sobre as descrições das sete colinas de Frei Nicolau de Oliveira, A. Vieira da Silva escreveu em 1945 um artigo para a revista Olisipo, Boletim do Grupo Amigos de Lisboa. Nele,  reporta que as colinas identificadas por Frei Nicolau de Oliveira não assentam em bases precisas, sendo a distinção entre montes e vales algo fantasiosa e arbitrária. 

A Colina que é um vale: Santo André

Vieira da Silva indica que a descrição feita sobre a primeira colina, embora fazendo referência à Graça, não inclui o Monte da N. S. do Monte. Quanto à colina de Santo André, Vieira da Silva é mais taxativo “… examinando uma planta cotada de Lisboa, nota-se que foi preciso muito engenho para formar um monte, com um vale e com as vertentes dos montes do Castelo e de S. Vicente, que o ladeiam alargando-se e espraiando-se até ao Tejo. E os escritores seguintes, sem notarem a falsidade da descrição, têm feito correr esta falsa noção do monte durante mais de três séculos.”

Quantas Colinas tem Lisboa? Imagem retirada de "As sete Colinas de Lisboa" A. Vieira da Silva in Olisipo, 1945
Imagem retirada de “As sete Colinas de Lisboa” A. Vieira da Silva in Olisipo, 1945

Dada a ausência de uma colina na zona descrita por Frei Nicolau de Oliveira, vários blogs turísticos estendem Santo André na direcção da Graça, embora esta colina esteja integrada na descrição da primeira colina, S. Vicente.

A par com este equívoco, a colina das Chagas gera também novas interpretações nas descrições da cidade, sendo muitas vezes equiparada ao Largo do Carmo.

A Sétima Colina: S. Roque ou Santa Catarina?

A colina de S. Roque descrita por Frei Nicolau de Oliveira ocupa o que actualmente chamamos Bairro Alto, mas os limites desta colina são partilhados também pelo monte das Chagas, sendo impossível, assim dividir aquilo que ele considera ser dois montes distintos. Da mesma forma, a 7ª colina, ou a Colina de Santa Catarina não tem limites definidos a norte.  

Não deixa de ser curioso que, actualmente, a 7ª colina é atribuída ao Bairro Alto, atribuição tornada realidade com a publicação da obra A Sétima Colina de José-Augusto França.

“Que não exista, como tal, a “Sétima Colina” deste programa cultural, não faz mal nenhum. Não existia? Pois passa a existir, no sentido semântico que lhe deu o simbolismo de um viver vário, sucessivo e sobreposto da cidade… ”

José-Augusto França, A Sétima Colina – um roteiro histórico-artístico, p. 30

Se as sete colinas são artificialmente pensadas para englobar a cidade de 1620 e equiparar a capital portuguesa a Roma, importa também relembrar que até ao final do século XVI, o vale que divide as colinas das Chagas e de Santa Catarina foi fruto de sucessivos desabamentos de terras, um deles decorrente do terramoto de 1567. Até essa data, Santa Catarina e Chagas eram uma única colina: o Monte ou Pico de Belver, ausente das descrições de Damião de Góis ou Cristóvão Rodrigues de Oliveira.

Actualmente, na área metropolitana de Lisboa, contam-se cinco montes acima dos 100 m:  Cume de Poiais (108m), Castelo de São Jorge (110 m), Penha de França (127 m), Montes Claros (170 m) e Monsanto (227 m). Serão estas as novas colinas de Lisboa?

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