Paula Marques

A expansão marítima portuguesa deu novo protagonismo a objectos de origem animal, vegetal e mineral, conhecidos na Europa mas rareando em quantidade, qualidade e em exotismo. Embora o seu uso enquanto materia medica se mantivesse inalterado, muitos destes artefactos seriam ainda mais valorizados e transformados em verdadeiras obras de arte quando combinados com montagens em metais nobres. São mirabilia que só poderiam ser vistas e apreciadas quase em exclusividade nos gabinetes de curiosidade das elites europeias.

O objecto que aqui se apresenta é uma dupla curiosidade pela associação de dois elementos de origem animal: a pedra bezoar e o coral vermelho. O que têm em comum é o facto de ambos terem virtutes – mágicas, religiosas, profilácticas e curativas – que podiam ser transmitidas às pessoas. E neste caso específico a dupla “farmacêutica” bezoar-coral resultava como agentes reforçados contra venenos, melancolia e problemas gástricos.

A pedra bezoar é uma concreção calcária – um cálculo – encontrado em raças de animais ruminantes asiáticas (como a cabra persa), porcos-espinhos e macacos. Formam-se no aparelho digestivo como reacção a alimentos não digeridos.  A palavra bezoar é de origem persa e significa “expelente de venenos”. As suas propriedades eram conhecidas pelos árabes que nas suas farmacopeias descreviam o uso e o fim: usada numa infusão, transformada em pó ou consumida em raspas, servia como antídoto no caso de mordedura de cobras ou ingestão de venenos mortíferos. A sua importância chegava ao ponto de serem usadas encastoadas em pendentes de filigrana ou ostentadas em pequenos contentores de prata filigranada. A rainha D. Catarina de Áustria, além de coleccionadora de preciosidades, usava permanentemente uma pedra bezoar – como elemento mágico de protecção, também de sofisticação e de marcado estatuto social. E no Oriente o bezoar era ainda muito procurado pelos homens pelas suas propriedades afrodisíacas.

O coral vermelho (Corallium rubrum) tem a sua origem na bacia do Mediterrâneo e até à década de 80 do século XX quase desapareceu devido à pesca descontrolada e ilegal. Em Portugal existe em recifes rochosos no barlavento algarvio aguardando um regime de protecção e salvaguarda destes habitats. Desde a Idade Média que este elemento marinho – não se sabendo se era uma planta, uma pedra ou um animal – suscitava curiosidade. Se debaixo de água era macio, o coral endurecia quando retirado do mar e em contacto com o ar. Acreditava-se que era uma “planta” tingida pelo sangue da cabeça da Medusa decepada por Perseu. O cristianismo associava esta “árvore marinha” à cruz de Cristo pela forma dos seus ramos e que tinha como dom a longevidade.

Uma das peças de ourivesaria devocional mais extraordinária com coral vermelho, é o relicário do Santo Lenho que pertenceu à Rainha Santa Isabel (in Museu Machado de Castro, Coimbra).

As indicações mágicas e medicinais do coral vermelho são várias: cura da epilepsia quando usado num colar ao pescoço, protegia as crianças do mau-olhado, o coral queimado servia de dentífrico eliminando o tártaro e fortificando as gengivas. Mas mais importante era a analogia visual da forma e cor do coral que se assemelhava aos vasos sanguíneos, acreditando-se que o seu consumo fortificava o sangue e fortalecia o doente à imagem do coral que solidificava e tornava-se forte como pedra.

Este conjunto “coral-bezoar” encontra-se na exposição temporária “Histórias de um Império – colecção Távora Sequeira Pinto” no Museu do Oriente. A não perder!

(Versão curta pode ser lida na revista online Together by Agic, pp. 31-33)

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